Estudo internacional publicado na revista médica The Lancet mostra que combinação com ibrutinibe aumenta sobrevida e pode substituir transplante de medula em pacientes jovens com linfoma de células do manto

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Durante mais de duas décadas, o transplante autólogo de células-tronco foi considerado uma das etapas centrais no tratamento do linfoma de células do manto, uma forma rara e agressiva de câncer do sistema linfático. Agora, um estudo internacional liderado pela rede europeia European Mantle Cell Lymphoma Network indica que essa estratégia pode deixar de ser necessária para parte dos pacientes mais jovens.
Os resultados foram publicados neste sábado (16), na revista científica The Lancet, e apontam que a adição do medicamento ibrutinibe ao tratamento padrão aumentou significativamente a sobrevida dos pacientes — sem que o transplante autólogo trouxesse benefícios adicionais relevantes.
O estudo TRIANGLE acompanhou 870 pacientes, entre 18 e 65 anos, em 165 centros clínicos de 13 países europeus e Israel. A pesquisa é considerada uma das maiores já realizadas sobre linfoma de células do manto, um subtipo raro de linfoma não Hodgkin que representa cerca de 6% dos casos globais da doença e é marcado por elevada agressividade clínica.
Coordenado pelo hematologista Martin Dreyling, da LMU University Hospital, o trabalho avaliou três estratégias terapêuticas distintas. Em uma delas, os pacientes receberam o protocolo convencional com quimioterapia intensiva e transplante autólogo. Nos outros dois grupos, o ibrutinibe — um inibidor da tirosina quinase de Bruton — foi incorporado ao tratamento, com ou sem transplante.
Após um acompanhamento médio de 55 meses, os pesquisadores constataram que os pacientes tratados com ibrutinibe tiveram resultados superiores tanto em sobrevida livre de falha terapêutica quanto em sobrevida global. O dado mais impactante, porém, foi a ausência de ganho clínico significativo com a realização do transplante entre os pacientes que já recebiam o medicamento-alvo.
A taxa de sobrevida global em quatro anos chegou a 90% no grupo tratado com ibrutinibe sem transplante, contra 81% no grupo submetido ao protocolo convencional com transplante.
“Depois de mais de quatro anos de seguimento, observamos melhora relevante não apenas no controle da doença, mas também na sobrevida global”, escreveram os autores. Segundo o estudo, “a adição do transplante autólogo a um regime contendo ibrutinibe não mostrou benefício suplementar e aumentou a toxicidade”.
Os pesquisadores defendem que o novo protocolo — baseado em quimioterapia associada ao ibrutinibe e seguida por dois anos de manutenção medicamentosa — “deve ser considerado um novo padrão de tratamento” para pacientes jovens e aptos ao transplante.
O linfoma de células do manto sempre foi um dos tumores hematológicos mais difíceis de tratar. Descoberto como entidade clínica específica apenas nos anos 1990, ele combina rápida progressão com altas taxas de recaída. Durante muitos anos, o transplante autólogo foi visto como a principal alternativa para prolongar a remissão da doença em pacientes mais jovens.
A lógica era simples: após ciclos intensivos de quimioterapia, o paciente recebia suas próprias células-tronco previamente coletadas para reconstruir a medula óssea destruída pelo tratamento. O método aumentava as chances de controle do câncer, mas trazia custos elevados e riscos importantes, incluindo infecções graves, toxicidade hematológica e mortalidade relacionada ao procedimento.
O estudo TRIANGLE lança dúvidas sobre a necessidade desse processo em todos os casos.
Os dados mostram que os efeitos colaterais severos foram mais frequentes entre os pacientes que receberam transplante associado ao ibrutinibe. Distúrbios hematológicos graves ocorreram em 54% dos pacientes do grupo com transplante, contra 28% entre aqueles tratados sem o procedimento. Infecções severas também foram mais comuns no grupo transplantado.

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“Os resultados sugerem uma mudança histórica no paradigma terapêutico”, afirmam os autores no artigo.
O trabalho também chama atenção por identificar possíveis diferenças biológicas entre os pacientes. Subgrupos com alterações genéticas mais agressivas, como alta expressão da proteína p53 ou índice elevado de proliferação tumoral Ki-67, podem ainda apresentar algum benefício adicional com o transplante, embora os próprios autores ressaltem que os dados ainda são insuficientes para conclusões definitivas.
Além da LMU University Hospital, participaram da pesquisa instituições como a University of Helsinki, a Erasmus MC Cancer Institute, a University of Bern e a Rigshospitalet. O financiamento foi fornecido pela farmacêutica Janssen, fabricante do ibrutinibe, embora os autores afirmem que a empresa não participou da análise dos dados nem da redação final do estudo.
Especialistas avaliam que os resultados podem provocar mudanças rápidas em protocolos internacionais de tratamento oncológico. Em sistemas públicos de saúde, a redução da necessidade de transplantes também pode gerar impacto econômico relevante, já que o procedimento exige internações prolongadas, equipes altamente especializadas e infraestrutura hospitalar complexa.
Para pacientes, o avanço representa sobretudo a possibilidade de terapias menos agressivas e com melhor qualidade de vida.
“O objetivo da oncologia moderna é substituir tratamentos extremamente tóxicos por abordagens mais inteligentes e direcionadas”, afirmam os pesquisadores no artigo. “Este estudo aproxima o tratamento do linfoma de células do manto dessa nova realidade.”
Referência
Adição de transplante autólogo de células-tronco a um tratamento de primeira linha contendo ibrutinibe em pacientes de 18 a 65 anos com linfoma de células do manto (TRIANGLE): acompanhamento de 4,5 anos de um estudo de superioridade de fase 3, randomizado, aberto e com três braços, da Rede Europeia de Linfoma de Células do Manto (ECLM). The LancetVol. 407 No. 10542 p1953 Publicado em: 16 de maio de 2026. Rede Europeia de Linfoma de Células do Manto. DOI: 10.1016/S0140-6736(26)00362-4